Dia 6: projeto inovação educacional em foco

Hoje visitei escolas particulares em Fellbach, cidade metropolitana de Stuttgart, na Alemanha. Mas não gosto de definí-las como particulares porque o esquema particular da educação alemã é completamente diferente do Brasil.

O exercício de não comparar e apenas me focar em inputs e insights que podem se transformar em práticas realmente úteis e aplicáveis na maioria das escolas do Brasil, de fato é um grande esforço e desafio. Por isso, peço que, ao lerem o que eu escrevo por aqui, vocês façam o mesmo exercício.

Nas escolas visitadas hoje as metodologias ativas e o ensino de habilidades sócio-emocionais também são ofertados para os alunos do Ginásio. E eu fiquei especialmente feliz ao descobrir que a impressão que eu havia tido da visitação à escola de ontem (que tinha metodologia bastante tradicionalista para o Ginásio) na verdade não condiz com a realidade da maioria das escolas aqui – hoje pude conversar sobre e perceber melhor isso.

É impressionante como todas as 6 escolas que eu visitei na Alemanha valorizam a produção artística e criativa das crianças, independente da idade e trilha escolhida. Mais que isso, chamou-me a atenção o quanto existem práticas criativas e simples para resolver problemas cotidianos – como o termômetro de stress dos professores, o controle dos alunos, a gestão de suas emoções e comportamento.

O fato de a Alemanha só obrigar a presença na escola a partir dos 6 anos, somado ao fato de as escolas de 0 a 6 permitirem (na maior parte do tempo) o convívio de crianças com idades distintas pode parecer para alguns brasileiros que o país desedenha a primeira infância.

Todavia, a partir dos meus estudos eu consigo ter um olhar mais positivo sobre isso. A meu ver, a escola pressupõe o respeito a regras de convivência em geral e impõe certa pressão (natural) para o alcance de suas metas acadêmicas e curriculares. Entendo que isso seja proposta unânime de toda e qualquer escola, independente do país. Portanto, quando um país não obriga uma criança a ir para a escola antes dos 6, ele está valorizando sua liberdade de ser, brincar e conviver – sem necessitar de uma instituição para mediar este processo que é naturalmente inerente à infância – e conta com um bom trabalho por parte das famílias (que entendem o valor disso e sabem o quê e como fazer).

As propostas de escolas infantis de 0 a 6 anos aqui na Alemanha também são públicas mas atendem principalmente as famílias que não podem fazer o seu papel nessa faixa etária (e é bem verdade que este número esteja aumentando, dadas as condições sociais e culturais que têm sofrido transformações e ocupado pais e mães fora de casa, aqui também). Mesmo assim, tanto o pai quanto a mãe têm direito à licença maternidade/paternidade de 1 ano, cada, garantido-se 2/3 de seus salários neste ano – que podem ser tirados em momentos alternados. Ou seja, a mãe pode ficar com a criança no seu primeiro ano de vida e o pai no seu segundo ano de vida – e aí já são 2 anos garantidos pelo vínculo familiar especialmente. E este pode ser também o que explica que a maioria das escolas infantis recebam crianças a partir dos 3 e já desfraldadas. É raro ver berçários aqui.

Eu particularmente sou a favor de que a criança fique em casa por mais tempo, ressaltando que esteja numa família em que pai ou mãe estejam predominantemente presentes e aptos a um educar de forma global para garantir mais chances de um brincar mais livre da criança e um melhor vínculo familiar. A meu ver, essa base bem feita possibilita uma melhor entrada na escola e um melhor desenvolvimento cognitivo futuro. Mas, óbviamente, sei que essa não é a realidade que vivemos no Brasil e, infelizmente, em muitos casos, a escola é melhor indicada (se não a única) para cuidar, orientar e facilitar o desenvolvimento infantil da criança.

E, para quem esteja se perguntando sobre socialização, eu relembro que não é só na escola que a criança aprende a socializar – desde que (novamente) seus pais entendam e reconheçam a importância disso e oportunizem para ela outros espaços/momentos com este objetivo.

Aqui na Alemanha, por exemplo, essa socialização acontece desde que o bebê nasce, uma vez que existem instituições públicas como a “Casa da Família” em que atividades são propiciadas para mães (ou pais) e bebês gratuitamente, em períodos distintos e de forma eletiva. Quanto a isso, eu fiquei especialmente surpresa com a quantidade de ofertas para um período de 6 meses (um livreto de umas 50 páginas, com letras pequenas). Atividades desde massagem shantala, até esportes, passando por grupos de orientação pedagógicas.

E, por falar em família, eu estou já morrendo de saudade da minha. Hoje Elisa (minha filha de menos de 2 anos) vai começar a fazer uma contagem regressiva para a minha chegada. Minha mãe fará com ela um desenho e, todo dia, elas marcarão “um dia a menos”.

Trazer o tempo para uma representação concreta ajuda a criança a entender o que acontece e a diminuir a ansiedade, uma vez que ela consegue ver que o fim da espera existe. O Filipe (meu filho de quase 9 meses) não apresentou alteração relevante no seu comportamento e nem na sua rotina e estou feliz por ele estar conseguindo lidar bem com minha ausência. É impressionante como as crianças nos surpreendem quando lhes permitimos isso!

Por hoje é só. Amanhã cedo seguirei para Talinn, na Estônia, onde iniciarei a visitação a mais 6 escolas na segunda feira.

Um abraço e até amanhã.

Um comentário em “Dia 6: projeto inovação educacional em foco

  1. Bianca, compartilhando um pouquinho das minhas experiências aqui no Canadá. A educação formal e obrigatória tb é somente a partir dos 6 anos. Quando cheguei, tenho que admitir, senti falta da rotina escolar pra minha caçula (com 4 anos na época). Queria rotina de segunda a sexta pra ela. Por mim e por ela. Achei uma escola Montessoriana muito tradicional aqui. Um tanto cara para a média, mas aceitei. Dois meses depois resolvi tirá-la pq estava sofrendo muito com a adaptação por conta da barreira da língua. Depois fui explorando o q aqui chama de Family Center ou Community Center que oferecem espaços lindos de brincar livre, com um espaço de acolhimento pra a família, pro reaprender a brincar juntos. Há pedagogo e assistente social q nos acolhem como mãe e até um curso denominado “Nobody’s Perfect”. O curioso é que descobri como para as maioria das mães daqui o entendimento que a criança deve ter espaço e tempo de brincar livre até 5 anos. Creche é rara e cara. Empregada ou babá nem se fala. É o incentivo fiscal para as mães não trabalharem fora para cuidarem dos,filhos nestes primeiros anos tb (coisa de 15.000 dólares/ano no nosso caso), portanto, tem q ter um conjunto de fatores e incentivos para que isso seja viável para as mães, para as famílias. Bjs é bom trabalho!

    Curtir

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s