Dia 4: projeto inovação educacional em foco

O dia começou com um seminário no ministério da Educação do estado de Baden-Wurttemberg, conhecido como ministério da Cultura, Juventude e Esportes.

Foi especialmente interessante a presença do Cônsul brasileiro que, em seu discurso para a nossa delegação brasileira (grupo do qual faço parte nessa visitação técnica), disse admirar a nossa postura humilde de quem se propõe a visitar para aprender. Ele não fez nenhuma alusão ao fato de serem melhores ou piores que o Brasil. Mas achei fundamentalmente importante ele destacar que toda pessoa que sai de seu lugar para conhecer mais é humilde ao passo que se percebe num lugar de agregar e construir, ao contrário do que seria a auto-suficiência.

E neste viés de aprendizado, confesso que meu maior desafio de hoje foi justamente manter meu mindset voltado para a atitude criativa em vez de comparativa. Uma vez que é impossível e inútil comparar os sistemas alemão e brasileiro de educação – pelo tanto que somos diferentes também economicamente, socialmente e culturalmente.

O sistema educacional da Alemanha é tão diferente do nosso que é até difícil de entender. O próprio funcionário do ministério da educação do estado de Baden-Wurttemberg não conseguiu responder a todos os meus questionamentos. Receio que, assim como eu e meus outros colegas de delegação tivemos dificuldades para entender o modelo alemão (por estar tão distante do nosso), ele também não conseguiu esclarecer didaticamente o funcionamento (por ser tão óbvio para eles).

O desafio de uma postura mais criativa e menos comparativa talvez seja a chave para todo e qualquer desenvolvimento genuíno. Não é possível transformar nada olhando para o que não se tem. Por isso, comparar é perigoso. Penso que o ponto seja justamente olhar como um caçador de inputs. Com a postura de aprendedor, de encontrar o que pode ser útil mesmo num contexto diferente. Olhar para a coisa como ela é, neste caso, para a realidade brasileira como ela é (mas também poderia ser para a criança como ela é #EducarComLeveza) e fazer o exercício de agregar valor baseado nesses inputs sem se perder na angústia que nasce do desejo do que poderia ser, mas não é.

O sistema educacional alemão tem, em resumo, um mesmo currículo para todos entre 6 e 10 anos. Depois, oferece 4 tipos de currículos diferentes que se se mesclam entre totalmente acadêmico até predominantemente técnico-profissionalizante, dos 11 aos 18 anos. Aos 11 anos, a escola envia um documento orientativo para os pais sugerindo, com base no desempenho da criança, qual dos 4 currículos ele deve seguir. Mas a responsabilidade dessa escolha é da família. E o aluno tem liberdade para perpassar por estas trilhas desde que apresente desenvolvimento compatível com cada uma delas.

A escola profissionalizante é incrível! Ultra-moderna e totalmente gratuita. Utilizam metodologias ativas desde 2003.

A “escola” infantil que visitamos hoje, dos 3 aos 6 anos, não alfabetiza (porque não é obrigatória, somente a partir dos 6 anos conforme a lei vigente), não tem turmas divididas em grupos etários (tipo séries ou anos), convivem em espaços temáticos (ateliê, música, teatro, culinária, ciências naturais, movimento, línguas) em vez de salas de aula e em espaços de convivência para troca de papéis-sociais (funções). Ainda existe a ilha da tranquilidade, que seria a versão mais respeitosa à criança, já proposta por Maria Montessori, para substituir o famoso “cantinho do pensamento” tão presente (i inútil) na cultura brasileira.

Em ambas as escolas esteve destacada a postura mais ativa do aluno e importância da capacitação (life long learning) e do autoconhecimento do professor.

Ainda que não se aproxime tanto ao que acontece na prática no Brasil, foi gratificante perceber as inúmeras coerências com as propostas presentes na nossa lei de diretrizes e bases (LDB) e na nossa base nacional comum curricular (BNCC).

Quando eu retornar pro Brasil entregarei aos apoiadores da campanha de financiamento coletivo que custeou minha vinda até aqui, materiais que conectam todos os meus insigths à LDB e à BNCC. Se você não foi um desses apoiadores mas se interessa em receber esse material prático, escreve para mim em biancasollero@gmail.com que eu responderei como você poderá adquirir este serviço agora.

Bem, o dia foi intenso e mentalmente sobrecarregado de tantos inputs! Até por isso, infelizmente, não consegui falar com meus filhos. Estou com saudades. Sempre que posso corro o olho na fotinha deles que está no meu celular.

Às vezes me pego pensando se vou aguentar até o final. E tento transformar a saudade numa motivação ainda maior para traduzir essas visitas técnicas em práticas que realmente possam ser aplicadas e façam sentido no nosso sistema brasileiro de educação. É como se esse fosse o preço dessa distância que dói.

Precisa valer a pena tudo isso. E a verdade é que, independente de como as coisas são apresentadas, eu sou a única responsável por fazer valer realmente a pena. É minha postura criativa o que me permitirá extrair uma limonada que nos seja minimamente refrescante, desse pomar gigantesco e saboroso de limão que comecei a ver hoje por aqui.

Até amanhã!

2 comentários em “Dia 4: projeto inovação educacional em foco

  1. É lindo ver sua entrega a esse projeto, Bianca. Estou morando no Canadá desde setembro do ano passado e como para eles é confuso quando falo do nosso sistema. Escola aos 2 anos?? Todos os dias, a manhã toda, com livros, atividade de casa aos 3? A vice-diretora achou aquilo tudo tão “pesado”. Aqui a alfabetização começa aos 6 anos. 5 anos é o kindengarden (ou matternelle) – só meio período. O que até agora me chamou a atenção é valorização do brincar e a inclusão (de gênero, dos first nations, de imigrantes e qualquer minoria). Também valorizam muito a educação emocional. Mês passado, por exemplo, vivenciaram o projeto “kind school” e cada turma fez projetos (como produção de livro de colorir com personagens criados por eles e depois levado para o hospital infantil), vídeos, poesia, desenho. Enfim, é vivenciando para aprender.
    Muito feliz de ver pessoas engajadas como vc que ao invés de cair na armadilha da comparação acreditam no poder da TRANSFORMAÇÃO, que vão atrás de respostas práticas de “como mudar”! Bom trabalho e muitos insights! Hard work 😉

    Curtir

  2. Nossa, que reflexão interessante Bianca. Eu nunca tinha pensado por essa perspectiva. Temos esse impulso de querer comparar, o que muitas vezes nos leva em um lugar de insatisfação, por buscarmos cenários inatingíveis, como se fossem os únicos possíveis. Contudo, observarmos em busca de insights para transformarmos o nosso ambiente é extramente válido! Amando te acompanhar por aqui!

    Curtir

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s